ARQUITETURA

Calças, Calçados, Calçadões

Vira e mexe volta à cena o calçadão de São Paulo. Ou por que é fundamental arrumar o seu piso, que chegou indesculpavelmente a um estado de petição de miséria, ou por que é preciso resgatar seu uso, vítima que é da síndrome do pequeno poder que nos assola e coloca sobre ele de carros fortes a pequenos veículos de sub autoridades. Volta por que a prefeitura desmanchou inteirinha e refez, também inteirinha, a praça sobre o Anhangabaú, mas não foi capaz, por ‘n’ motivos, de avançar no imprescindível projeto de reformulação do calçamento do centro, mobiliário e sinalização do centro.

Volta, e aí volta assustadoramente anacrônica e baseada em premissas equivocadas, acenando com a necessidade de abertura das ruas ao uso de taxis, ubers e, óbvio, veículos particulares.

Volta, portanto, de modo sempre improdutivo e inconclusivo, até por que as metodologias de elaboração dos projetos continuam se ressentindo de sua idade avançada. A dificuldade de atualização das metodologias de projeto são muito grandes. Processos colaborativos, os sucessores dos processos participativos, são raros, praticamente inexistentes. Isso se viu no Arouche, no Anhangabaú, mais recentemente na incapacidade de organizar o uso das calçadas durante a pandemia…Difícil conseguir, até mesmo, um ente administrativo articulador da ação público-privada, que alguns chamam de agência, outros chamam de autoridade, outros podem chamar apenas de “uma diretoria específica na Emurb”. Ops… acabou a Emurb. Bom, mas tem a Secretaria, tem a SP Urbanismo.

O fato é que se tem enorme dificuldade em fazer seja o simples, seja o complexo. Seja o fácil, seja o difícil. Não se faz a zeladoria, mas também não se promove o retorno do circular avenidas, pelo que clamamos há tantos anos. Incentivos? Em geral não passam de renúncias fiscais inócuas. Os edifícios garagem? Não saíram do papel e agora praticamente são remédio vencido.

Aliás, tudo no centro sempre corre o risco de virar remédio vencido. Isto por que tudo fica na fase inicial, experimental ou das boas intenções. Tudo é lento, disperso, fragmentado. Coisas importantes como o Centro Aberto, o Triângulo Histórico, o Projeto de Reforma do Calçamento, a recuperação de fachadas… tudo acaba em voos de galinha, apesar dos sinceros esforços de sucessivas administrações, associações da sociedade civil e outros agentes produtores da cidade. A perda de Paulo e Jaime na mesma semana, ambos tão caros ao centro de São Paulo, que o diga. O incêndio do Wilton Paes de Almeida não diz, berra. E seu terreno vazio torna tudo ainda mais agressivo.

Todos gostam do centro, todos dizem que ele é importante, todos fazem juras de amor. Mas, então, por que… ?Por que não há disponível na praça coragem, vontade ou articulação política capaz de enfrentar as questões essenciais. Por que se fica no tópico, superficial, no quase perfunctório. Há algumas questões centrais a serem superadas para que qualquer projeto consistente e de longo prazo para o centro se concretize. Uma delas, resolver de uma vez por todas o que fazer com o minhocão e… fazer! Outra, também prioritária, é retirar do centro os terminais de ônibus que o transformam num entreposto, em local de passagem e não de estar. Aliás, a presença dos terminais é emblemática. Foram para lá provisoriamente, ficaram, e agora se faz uma privatização para perenizá-los ali, a ocupar espaços inadequados.

Apostar e incentivar fortemente comércio, serviços e cultura, atividades econômicas pulverizadas e de pequeno e médio porte que são grades empregadoras e fortalecem a diversidade, palavra chave de todo o processo. Diversidade sócio econômica, de raça, de gênero, etária, cultural. Diversidade não apenas de uso e ocupação formal, mas de apropriação e envolvimentos.

Ao invés disso a saída que se encontra, há muito tempo, é fazer projetos que não são projetos, são planos. Planos cada vez maiores, mais complicados, mais complexos. Que se auto justificam e, assim, explicam a inoperância. Alimentando a lenda urbana de que a cidade cresce e se faz sem planejamento. São planos que, apelidados de projeto, confundem as escalas e misturam os instrumentos de modo a lançar um manto diáfano que torna difusa a definição da ação. Planos que se mantém, precisamente, distantes do cidadão, distantes do chão da cidade. Este é o ponto. O chão da cidade. Olhemos para baixo. Voltemos ao calçadão, que vira e mexe, volta à baila. Então, nesta hora, é importante lembrar que o calçadão de São Paulo é de 1976 ! E que foi um dos primeiros do mundo na nova geração de calçadões.

Vale lembrar disso para que se percebam duas coisas. Boa parte (a maior parte?) do que se discute hoje com novos nomes cheios de bossa do tipo urbanismo tático (dá para não ser estratégico e tático?), urbanismo social (dá para não ser econômico, político e social?), fachada ativa, retrofit, cota parte, cota de solidariedade, são discussões que não nasceram hoje. Ao contrário, são discussões históricas e fundamentais da arquitetura e urbanismo. São discussões praticamente permanentes no tocante à cidade industrial, pós industrial, de serviços e de informações. Por isso, estudar e conhecer a evolução destes conceitos procurando aprender com eles e com o uso e aplicação que deles é feito pelo mundo afora é tão importante. A outra coisa que se destaca na lembrança de que nosso calçadão tem 45 anos, quase meio século, é que São Paulo foi uma cidade que esteve, se não na vanguarda, muito próxima dela no que diz respeito a esta discussão, a uma agenda urbana. Esteve próxima em especial no período que vai de Faria Lima a Olavo Setúbal. Como estivera com Prestes Maia e Anhaia Melo.

Coisas como fechar ruas para automóveis, pedestrianizar áreas, reurbanizar áreas no entorno de equipamentos de médio e grande porte abrindo espaços públicos com qualidades programáticas, paisagísticas e urbanísticas específicas, além de arquitetônicas, vem de longe, inclusive destas épocas… A Emurb (um ótimo capítulo à parte), ao longo da linha Norte-Sul (linha azul) fez isso com grande qualidade. Vejamos o Paraíso, o Centro Cultural São Paulo e a própria rua Vergueiro… O Jabaquara, Conceição, Sé, são vários exemplos.

Faria Lima, Figueiredo Ferraz e Olavo Setúbal foram três prefeitos que entenderam a AU como sendo um conhecimento necessário e um instrumento de elevação de qualidade de vida e desenvolvimento econômico.

Claro, defendendo modelos conceituais e projetos de cidade com os quais eu, já há algum tempo, não concordo ou pelos quais nutro severas restrições conceituais, teóricas e políticas. Mas, o que estou destacando aqui é a importância de sua existência. E observando que isso se perdeu. Se perdeu não apenas pela opção rodoviarista dispersa, que, inclusive, vem de muito antes, desde Prestes Maia. Se perdeu engolido pelo que chamo de apagão urbanístico associado ao extrativismo urbano empobrecedores que se impuseram a partir do final da década de 1970, com ênfase na de 1980.O que se tem hoje, como resultado, é dispersão e fragmentação, enquanto o que se faz necessário é a articulação, coesão, participação, colaboração e diversidade. Se faz necessário um projeto. Um projeto. Que consiga articular calças longas com calçados confortáveis.

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