ARQUITETURA

O Masp é tech, o Masp é pop, o Masp é tudo ou o projeto de um país urbano

Independente de minha paixão pela obra – obra completa, arquitetura-cidadania-cultura – da Lina, tive a oportunidade e o privilégio de poder descer do ônibus em boa parte das tardes de minha adolescência, vindo da escola, e dar uma parada no MASP.

Naquele vão, naquela vista, foi que se transformou o moleque desenhador de carros, caminhões e aviões, que chegou um pretenso engenheiro aeronáutico e saiu um jovem arquiteto. Ali se deu a descoberta e se consolidou minha paixão pela cidade. Além desta, algumas lembranças pessoais pontuais me ligam fortemente ao MASP, como certamente outras tantas ligam milhares, milhões de outras pessoas.

Uma delas, muito forte, foi o dia da morte da Lina. Outra, muito terna, foram os passeios para ver a obra, eu recém chegado da Vila Tibério. Foi desde o início um instrumento de sedução. Outra, muito reveladora, foi a reação de alguns luminares cronistas da arquitetura paulistana à exposição dos expositores de concreto e vidro que fiz na entrada, no eixo de penetração da Oca, como primeira exposição a ser vista pelo visitante interagente da nonaBia.

Diziam e escreviam eles e elas que a presença dos expositores sem nada ‘pendurado’ era uma prova de que a nonaBia “arquitetura para todos, construindo cidadania” estava vazia e não tinha conteúdo. Não foram capazes de compreender, entender que fosse, que os expositores eram a própria exposição. A grande homenagem à Lina, à sua obra, à AU e ao Design.

E que a presença da Lina na abertura da exposição, com aquela que eu considero sua obra síntese, seu testamento, era a marcação de uma posição. Há exatos 10 anos nós os resgatamos do ostracismo, graças à compreensão e ousadia de antigos funcionários e funcionárias do museu, que os mantiveram lá, inteiros, e à bravura de nossos brancaleones.

Os expositores estavam esquecidos no depósito do museu e pela primeira vez, em décadas, voltavam à luz, elemento que faz parte de sua própria concepção e existência e ao noticiário. Principalmente graças à insensibilidade da crítica, se tornou ainda mais prazeroso ver a reação e relação dos visitantes (não profissionais) diante deles. Um ar curioso, iluminado, reticente, reflexivo. Tudo o que a arte desperta no ser humano.

E a relação com a transparência, o brilho, o reflexo, o vidro… Na sociedade do ‘não alimente os animais’, a pergunta síntese era “pode tocar”?

Me divertia ficar ali por perto quando havia excursão de jovens estudantes das escolas primárias e secundárias durante a semana, pois sempre havia aqueles que levantavam lentamente a mão para tocar o vidro mas hesitavam, procurando o olhar repressor das tias e tios, dos professores e professoras.

Era muito bom, quando me detectavam com o olhar, e eu fazia um sorriso concordante, por vezes incentivador.

Pode tocar.

É seu!

Palavra dela!

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