OPINIÃO + REFLEXÃO

A cultura do cancelamento

Um post que pode ser que incomode, mas que eu acho importante, pois vejo acontecer cada vez mais ao navegar pelo YouTube.

A cultura do cancelamento da geração mais jovem se abate também sobre a história do conhecimento. Em apresentações cada vez mais comuns no Youtube, em que teorias complexas cujos autores levaram décadas e décadas para formular são resumidas em cinco ou seis minutos, sobram adjetivações de “cancelamento”: fulano era fascista, beltrano era racista, cicrano era liberal, a teoria de um era “completamente equivocada”, ou ainda “de quinta categoria” e, por isso, “não valem nada”.

É louvável que jovens – muitos deles de indiscutível brilhantismo, diga-se – se proponham a fazer uma divulgação para o grande público de temas complexos que vivem dentro de certo hermetismo acessível somente aos supostamente “letrados”. Porém, resumir em poucos minutos temas cujos autores levaram uma vida inteira para elaborar exige enorme cuidado, para não cair na armadilha da simplificação e, mais ainda, para, ao fazer uma revisão que se diga crítica, evitar cair na soberba.

Como disse Raymond Aron – um liberal assumido, porém um dos maiores conhecedores da obra de Marx, vejam só – em um curso sobre Marx que ele dava no Collège de France, depois publicado em livro, “uma qualidade da obra de Marx é que ela pode ser explicada em cinco minutos, em cinco horas, em cinco anos, ou em meio século. Ela se presta, de fato, à simplificação do resumo de meia hora, o que faz que aquele que não entende nada da história do marxismo possa eventualmente ouvir com ar de ironia aquele que dedicou sua vida a estuda-la”. Isso vale para Marx, mas também para quase todos os grandes pensadores da história do conhecimento.

A leitura de autores que, ao longo do século XX, se debruçaram para tentar entende-lo e explica-lo, não pode ser congelada no tempo histórico de cada um e trazida para os tempos atuais, como tal, para sofrer implacável julgamento. Não se pode tampouco importar a teoria como um todo, fechada, porque ela evidentemente, se aplicada aos dias atuais, ficará completamente anacrônica e provavelmente incoerente. É preciso entender o sentido do que o sujeito escreveu, o alcance histórico da sua contribuição, e ver de que forma ela se adapta, ou não, à uma compreensão ampla do mundo, desde a época em que ele escreveu até hoje. As vezes explica apenas um momento histórico, importante para se entender o conjunto, outras vezes ajuda esclarecer o porquê de determinados caminhos que a história tomou.

Raramente são contribuições descartáveis. É claro que muitos dos que escreveram nos anos 30 ou 40 tinham traços liberais, é possível que muitos alemães e austríacos tenham tido relações confusas com o nazismo ascendente (vem aqui a lembrança da velha acusação que “anula” o Heidegger para muitos), é evidente que muitos autores brasileiros do início do século passado se pautavam por uma lógica eurocêntrica, que muitos escreveram coisas que, hoje sabemos, eram racistas, e assim por diante.

Mas a leitura e compreensão de autores anteriores deve ser feita sempre ao mesmo tempo que a leitura e compreensão dos momentos sócio-históricos de cada um, dos valores dominantes, das disputas em jogo, das suas lutas pessoais, das contradições vigentes em cada época e na vida de cada um. Ser liberal em 1930 significava algo diferente de sê-lo em 1970, e mais diferente ainda em relação a hoje em dia. Portanto, a rotulação feita a cada um, mesmo que correta, não deve “cancelar” todo seu pensamento, a leitura histórica deve ser feita sempre com o recuo necessário para apreender as contribuições de cada um, em pequenas partes, com suas contradições para se entender o todo.

E não estou falando de autores marcadamente de direita, próceres do conservadorismo e do capitalismo, e a obrigação de questioná-los, com consistência e argumentos. Estou falando de grandes nomes do pensamento crítico de esquerda que, cada um à sua maneira, tentaram trazer uma contribuição a um entendimento que questionasse aquele mundo, que nos levou ao que vivemos hoje, e que são jogados no desprezo por causa de uma leitura simplificada ou de um julgamento descontextualizado. Isso, por certo, vai reduzindo o nosso campo de reflexão e nossa cultura. Infelizmente, vejo que essa atitude é cada vez mais rara até mesmo nos que pretendem dar continuidade à um pensamento crítico de esquerda.

A facilidade com que se “acaba”, com termos de grande agressividade, com gente que dedicou a vida a pensar e propor ideias, que viveu e sofreu as agruras de seu tempo, me soa como um reducionismo que vai, vejam só, no mesmo sentido do cancelamento da ciência. Recebi a chamada de um seminário da ultradireita católica para dizer que Marx era satanista.

Temos que ter cuidado, pois nessa toada, os mais esquerdistas acabam usando dessa mesma lógica, para “cancelar” autores importantes, dentro mesmo das discussões “das esquerdas”.

A era do Youtube é formidável, mas exige certa humildade. O pensamento crítico que se alimenta do conhecimento passado também o exige, senão produz simplificações bonitas de discurso, mas falhas em conteúdo.

Era só um desabafo.

João Sette Whitaker Ferreira via Facebook

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