TEXTOS

Resenha Profanações de Giorgio Agamben

Sancho Pança entra num cinema. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia; a galeria está totalmente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas inúteis tentativas de chegar a Dom Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina, Dulcinéia, que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou: é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue em pé, desembainha sua espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte preto aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando as imagens. O público indignado abandona a sala, mas na galeria só as crianças encorajam fanaticamente Dom Quixote. Só a menina na plateia o fixa com reprovação – OS SEIS MINUTOS MAIS BELOS DA HISTÓRIA DO CINEMA.

Do final. Esta obra, publicada em 2004, reúne uma dezena de textos de formatos diferentes e escritos entre momentos anteriores ou posteriores a outros livros do autor: são ensaios, são prosas, ora quase fragmentos, ora quase aforismos. Mas trata-se de um livro de ação política, embora haja quem o define pronto quando o irracional ousa apresentar-se como racional. Mas o defino como um livro de ação política sim, mas sob a égide de uma ‘ontologia do gesto’, o que o articula uma ética no mundo das acepções com uma metafísica imbricada nas coisas. Destacam-se, pois: ‘O AUTOR COMO GESTO’ [em 22 de fevereiro de 1969, Michel Foucault proferiu sua conferência ‘O que é um autor?’, quando ele citou a formulação de Beckett ‘o que importa quem fala, alguém disse, o que importa quem fala?’] e ‘O DIA DO JUÍZO’ [a relação secreta entre o gesto e a fotografia, a foto pode mostrar um rosto, um objeto, um acontecimento qualquer, entretanto no Hades, as sombras dos mortos repetem ao infinito o mesmo gesto, a eterna repetição é aqui a chave secreta de uma infinita recapitulação de uma existência].

ELOGIO DA PROFANAÇÃO – mais uma vez, antes, o ‘capitalismo como religião’ é um dos fragmentos póstumos de Walter Benjamim, em que o capitalismo representa um fenômeno religioso parasitário a partir do cristianismo. Os profetas da modernidade conspiram ou são solidários, de algum modo, com a religião do desespero: o ethos que define Nietzsche, o homem é o super-homem, o primeiro homem que começa conscientemente a realizar a religião capitalista, assim como em Freud, o inferno do inconsciente paga os juros, e em Marx, os juros, como função da culpa, transforma-se imediatamente em socialismo. Walter Benjamim não se cansou, assim criou o conceito de ‘valor de exposição’. Acontece que o sonho capitalista da produção torna-se improfanável. Trata-se da pornografia, quando os pornostars, no momento em que executam suas carícias mais íntimas, olham resolutamente para a objetiva, mostrando maior interesse pelo espectador do que pelos seus partners: mesmo sabendo perfeitamente estar exposta ao olhar, não tem com eles sequer a mínima cumplicidade – não dar a ver nada mais que um dar a ver.

O SER ESPECIAL – a espécie de cada coisa é sua visibilidade, a sua inteligibilidade, mas especial é o ser que coincide com o fato de se tornar visível, com a própria revelação. O espelho é o lugar que descobrimos que temos uma imagem. A tal ponto que os filósofos medievais estavam fascinados pelos espelhos, interrogavam-lhes sobre a natureza das

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